A Vocação da Eternidade

outubro 24, 2011

O romancista Alexandre Dumas publicou uma carta em meados do século XIX defendendo o poeta Gerárd Nerval das acusações de louco. Mais que defender, ele exalta as qualidades de Nerval e faz uma pergunta fundamental: de onde nasce a sua criação? Nerval começa o livro “As Filhas do Fogo” respondendo a essa pergunta e pedindo a ajuda de Dumas para lidar com um personagem. Um ator que se apaixonara de tal forma pelo personagem de Nero, que intentava queimar todo o teatro com o público dentro. É  o ator que chegou, enfim a ‘vocação da eternidade’ da arte.

O Filme de Marcelo Grabowsky nos propõe um olhar para uma peça. Uma peça encenada por 24 horas seguidas (o diretor propôs aos seus atores que não saíssem de seus personagens em nenhuma dessas horas). Há uma personagem. Uma judia, que a partir do seu testemunho nos informa que sofreu as maiores torturas num campo de concentração. Há uma atriz que repetidas vezes faz o mesmo papel por 24 horas. Há um público que se transforma em personagem e está relegado ao papel de eterna realidade. E há um filme que mais do que refletir sobre a representação, quer olhar pros curtos-circuitos que existem no estatuto da imagem e tirar daí uma imagem pura.

O filme inicialmente pode ser comparado ao ‘Moscou’ de Eduardo Coutinho, pela proposta e pela liberdade que se permite no que se refere a sua misé en scene. Mas Marcelo aqui, não tem por objetivo estabelecer um jogo de representação, ou melhor, aqui ele escolhe perder esse jogo, e quem emerge é o falso em sua potência. O filme, baseado na peça de Peter Weiss, ‘O Interrogatório’,  acompanha a atriz Carla Ribas no palco e nos bastidores. Nos dois espaços é a personagem da Testemunha Judia que está ali. O primeiro grande curto circuito está no momento em que a atriz/personagem desce do palco e uma amiga da atriz vem cumprimentá-la enquanto ela mantém o semblante impassível. A amiga fala: “Não vai pirar, isso é só teatro”. A personagem não entende a língua da amiga da atriz. Ela estava ali no que os estóicos vão chamar de uma outra duração. Ali ela não estava existindo, mas coexistindo. O que é um ator, senão aquele que tem as chaves da coexistência, não somente dos espaços, mas das durações.

A repetição no filme é captada de forma tão poderosa que chega em momentos a colocar em suspensão inclusive os momentos em que a atriz está nos bastidores. Tudo é arrastado com uma força centrífuga, em que todos os elementos ficam submissos ao olhar da personagem. Objetos, sentimentos, pequenos gestos silenciam frente à manifestação dessa comunhão espiritual, absurda e forte que, usando as palavras de José Saramago, talvez nos faça crer que é possível, pelo menos por alguns instantes, vencer a morte.

No instante em que a personagem canta uma música do folclore judeu, nos momentos de cansaço, nas vacilações do texto e na tirania que a realidade impõe por fim, há uma câmera que testemunha com o mesmo vigor e a mesma complacência. Quando os atores começam a vencer as personagens, a câmera continua. E quando os atores vão se confraternizar na praia a câmera também está, pois a perplexidade do olhar é de um filho para uma mãe. Que as vezes olha com os olhos de um bandido e por vezes de um conterrâneo de alma. Um filme para ser amado.

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